Antonio Pereira Sousa

"Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas." (Carlos Drummond de Andrade)

Textos

A Arte De Envelhecer
 
O tempo passa.
Há um ontem na vida de cada um de nós.
Tempo esse que se alonga e se distancia de um ponto inicial que nos fez surgir no meio dos outros, pelo nascimento.
Nascer impõe ter de viver.
Em essência e por um mistério maravilhoso, consciente ou inconscientemente, buscamos meios para manter a vida, conferindo-lhe um sentido, uma razão para viver, a partir de arranjos de proteção da própria vida: o conforto da alimentação, as conquistas das ciências e das técnicas, o aconchego do lar, o conforto da religiosidade, os modos de lazer...
Nesse compromisso de escolher o melhor modo de viver, e enquanto o tempo passa, o corpo vai ganhando marcas, sinais de que há um ciclo a se cumprir, como bem enunciou o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935): “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre”.
Não há como fugir desse determinismo: nascemos, vivemos e morremos.
Porque é desse modo e não de outro, nada há o que fazer a não ser procurar viver de maneira mais saudável possível, utilizando-se dos saberes do tempo de cada um, que envolve questões socioculturais desenvolvidas ao longo da história do homem.
Muitas reflexões trataram e tratam do tema do envelhecimento.
Li um desses estudos, A Arte de Envelhecer do orador e filósofo romano Cícero (103-43 a.C.).
Marco Túlio Cícero produziu uma vasta e diversificada obra e é considerado um dos mais importantes autores da literatura latina, que causou forte influência na cultura ocidental. Entre seus textos, lá está um sobre a velhice. É uma tese de que a arte de envelhecer é encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, pois todas elas têm as suas virtudes: “Se o tempo envelhecer o meu corpo, mas não envelhecer a minha emoção, será mais fácil ser feliz” (Cícero).
 O filósofo Cícero complementa:
 
Não importa se a estação do ano muda… Se o século vira… se o milénio é outro. Se a idade aumenta… conservo a vontade de viver… não se chega a parte alguma sem ela.
 
Viver é preciso.
Nada de angústia porque a velhice poderá nos afastar da vida ativa, enfraquecer o nosso corpo, privar de alguns prazeres e nos aproximar da morte.
A ideia é teimar: é preciso viver. Mais do que opiniões populares sobre o envelhecimento, grandes e radicais modificações já foram conquistadas pela ciência e tecnologia, abrindo outros campos de atividade para o idoso, fazendo o corpo resistir mais, acentuando os sentidos para apreciar tantos outros prazeres. Mas um dia, fatalmente, mudaremos de endereço, sairemos deste plano e mergulharemos no mistério da vida eterna: morreremos.
Mas, enquanto vivemos, devemos lutar para fazer da vida um cântico de alegria. Precisamos descobrir, dentre as infinitas possibilidades ofertadas pelo universo, caminhos e oportunidades para uma vida suavizada de dramas, envelhecendo sem culpa, sem ter de preocupar em esconder os fios de cabelos brancos ou apagar da face aquelas rugas que assinalam um tempo vivido: quando criança, viver esse tempo com gosto; quando jovem e adolescente vibrar com cada instante; na vida adulta, enfrentar com entusiasmo as tarefas da sobrevivência, tudo qualificado com as virtudes do tempo de cada um.
Deixemos Cícero falar:
 
Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.
Antonio Pereira Sousa
Enviado por Antonio Pereira Sousa em 16/08/2018
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