Antonio Pereira Sousa

"Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas." (Carlos Drummond de Andrade)

Textos

O Sentimento
 
 
O homem entra na vida de modo muito frágil, dependendo, inteiramente, de terceiros para sobreviver. Essa condição humana de dependência de terceiros resulta da necessidade do longo tempo de aprendizagem de que precisamos para alcançar a maturidade e ganhar consciência daquilo que somos: humanos. Somos uma espécie desprovida de instintos dominantes. Nos demais animais, o instinto é predominante. Exemplo. O gato é gato e já nasce equipado para agir como felino que é. O cantor, Chico Buarque, em sua poesia “História de Uma Gata”, brinca docemente com o tema:
 
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás.
 
O gato, como tantos outros animais, é aquilo que é. Todos esses animais estão prontos e não se afastam do que são. Não há liberdade aí, como quer o poeta Chico Buarque. Eles estão cativos a seus instintos. “Escolhem e rejeitam” por instinto, como afirma o pensador Jean Jaques Rousseau (1712-1778) em seu texto “Discurso sobre a origem da desigualdade”.
Diferentemente, o homem, por um ato de liberdade, sem a força de seu instinto, “escolhe e rejeita” considerando tantas outras questões: “pode se aperfeiçoar e se tornar imbecil” na expressão de Rousseau.
O sentimento surge aí dessa possibilidade humana de decidir a vida realizando escolhas, agindo na direção de interesses pessoais ou coletivos, em face de infinitas considerações sobre o mundo.
Essas considerações são o olhar que reflete sobre a vida. E é vivendo que os sentimentos se desabrocham.
Todos esses sentimentos desabrochados no transcorrer da vida são afetos. Esses afetos compõem nossa potência de agir e se configuram em forma de alegria, tristeza, bondade, maldade, arrogância, humildade e outros. São esses sentimentos que individualizam cada um de nós em nosso encontro com o mundo e diversificam nossos trajetos na caminhada em busca da realização de desejos.
A nossa potência de agir, porque formada de afetos, interpreta os efeitos que o mundo nos aflige, gerando a necessidade de reações que podem proporcionar generosas criatividades ou impiedosos insucessos.
Desse esforço interpretativo das decorrências de nosso encontro com o mundo, surge a reflexão sobre a vida, sobre o bem e o mal, sobre o que queremos e o que podemos fazer. Nessa reflexão se cogita a existência de valores. Valores tomados como criação humana que fazem com que as coisas adquiram um novo sentido: o ato pode ser bom ou mau, justo ou injusto, alegre ou triste. Todos esses valores trazem em si a figuração dos afetos, dos sentimentos singularizados nos indivíduos, que são os legítimos portadores e agentes dos valores.
O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em sua crônica “Namorado: ter ou não ter, é uma questão”, nos ajuda a entender que o valor é uma consequência dos afetos. Na parte final da crônica do poeta, lemos: “Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho, necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido”.
O valor não é um atributo do mundo em si. Ele é um dado da consciência revestida de afetos. Aquelas emoções ou gosto que nos fazem agir e reagir de um modo ou de outro resultam de uma aprendizagem social, passa pelo crivo individual, em razão das experiências particulares, e ganha a racionalidade ou irracionalidade da ação.
Importa dizer que os sentimentos podem ser domesticados, civilizados e até coletivizados: há quem goste de músicas e os que preferem esportes. A escolha é um sentimento em ação.
No poema “Sentimento do mundo”, o poeta Drummond de Andrade confessa certa impotência perante a realidade, numa incapacidade de livrar-se de suas imaginações melancólicas e termina se salvando no prazer do amor, afeto maior que acolhe a todos os demais sentimentos de alegria:
 
 
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Antonio Pereira Sousa
Enviado por Antonio Pereira Sousa em 17/08/2018
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