Antonio Pereira Sousa

"Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas." (Carlos Drummond de Andrade)

Textos

A Paz
 
 
A paz é a ordem dentro do movimento
Papa João Paulo II (1920 – 2005)
 
 
Existir é buscar.
O homem não se contenta em viver sua existência usufruindo apenas daquilo que herdou de seus antepassados. Ele edifica novos mundos e desenvolve novas competências ao fazer esse mundo novo surgir. Pode-se ver isso comparando os bens produzidos e utilizados em tempos e espaços diferentes: ontem era só a enxada, hoje temos os tratores e o arado mecânico. Ontem era só a comunicação oral, hoje temos a internet...
Nessa caminhada longa e nessas conquistas materiais valiosas, o domínio da consciência também evoluiu: as liberdades individuais e coletivas se ampliaram, direitos e deveres se reconfiguraram numa diversidade colossal, criando dificuldades de entendimento entre gerações e povos, comprometendo modos de afinidade.
Esses são sinais claros de que a vida humana é movimento por ser busca, marcha, abertura ao inusitado.
É nessa procura de si que o homem organiza formas de viver. Nascem aí as estruturas sociais, rede de relações estabelecidas entre os indivíduos situados em suas instituições: economia, trabalho, família, igreja, clubes, academias, entre outras.
Ao organizar essas instituições, inventamos fronteiras físicas, criamos nossas bandeiras e constituímos nossos objetivos e, em seu entorno, surgem os traços culturais ou simbólicos e suas formas de defesa.
As contraposições advêm dessa força de justificação dos limites e dos objetivos de cada indivíduo, de cada grupo, de cada nação: o azul do colorido que agrada a uns, desagrada a tantos outros. A vontade natural de uns opõe-se à ambição de tantos outros: eis o conflito.
O retrato que se apresenta a nosso olhar, auscultando-se as tensões da história dos homens, é de que vivemos em permanente duelo. Como resultado disso, tem-se amplos exemplos de dominação, submissão e exclusão, causando sofrimentos atrozes a diferentes povos.
A sociedade moderna tomou consciência desse sofrimento que cada um de nós individualmente ou em grupo gera a outros indivíduos ou grupos. Está presente nessa tomada de consciência a ideia da investigação para paz, no que emerge a posição de que pode haver uma fraternidade entre as pessoas: existe solução para a fome no mundo, há alternativas pacíficas para as agressões bélicas.
Parece irrelevante, mas vale lembrar que todos nós somos seres humanos e vivemos necessariamente em interação e interdependência, embora condicionados a uma pluralidade. Essa pluralidade, como assegura Hannah Arendt (1906 – 1975), tem um duplo caráter de “igualdade” e de “distinção”: “Temos que ser suficientemente iguais para poder entender-nos e suficientemente diferentes para ter algo que dizer”. Essa razão explica porque as investigações e os estudos para a paz são necessariamente uma convergência multidisciplinar e multicultural.
Na busca da paz, muitos caminhos devem ser percorridos, muitos diálogos devem ser travados, tudo sem se desconhecer alguns princípios que são inalienáveis, não são possíveis de serem abandonados, porque é da natureza de todos nós.
Desse modo, pensar a paz começa necessariamente por considerar nossa natureza terrena. Humano vem do latim humus, terra. Sendo a terra nosso berço, é nosso dever, para viver em paz, cultivar e cuidar dela como alternativa à sua destruição. Humus é também humildade, o que se indispõe com as posturas de arrogância que assumimos ao ferir o outro.
Esses fundamentos básicos que nos fazem ser humanos (a natureza terrena, a humildade e a pluralidade) são, frequentemente, desconsiderados, o que provoca desordens ilimitadas no social e promove reações impensadas, advindo daí desequilíbrios e impedindo os arranjos para composição da paz.
Essa capacidade de gerar conflito não pode superar nossa competência de desenvolver meios para fazer a paz acontecer. Paz em grego é eireno e, na mitologia grega, a paz é irmã da justiça e do bom governo. “A paz se nutre aí nessa habilidade de se poder usar nossa inteligência, saber, destreza e arte para reconhecer e agir na consciência de que a paz é a ordem dentro do movimento”.
A proposta não é buscar a paz perfeita, é procurar a paz como processo sempre inacabado de constituição das relações humanas por meios pacíficos.
Antonio Pereira Sousa
Enviado por Antonio Pereira Sousa em 23/07/2018
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